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Periférica 3ª edição - Mostra de Cinema de Camaragibe

Atualizado: Mar 31

Por Cássio Raniere


A Periférica - Mostra de Cinema de Camaragibe vem homenageando em suas edições, artistas e fazedores de cultura locais com trajetória reconhecida pela comunidade. Conectada com uma rede de cultura internacional, a Periférica em seu pouco tempo de atividades, vem galgando importantes espaços de referências no circuito audiovisual. Hoje, em sua terceira edição, amplia para o circuito latino-americano, despontando com iniciativas que valorizam as tradições

sócio-culturais, colocando-as no eixo da contemporaneidade e do cenário global. Em sua 3ª edição a Periférica: Mostra de Cinema de Camaragibe homenageia Dona Dóra do Boi Rubro Negro, como protagonista de uma manisfestação artística reconhecida em Camaragibe que a Mostra apresenta para a América Latina através de sua capilarização digital.






Doralice Barreto da Silva, popularmente conhecida como Dona Dóra, é natural de Timbaúba (Zona da Mata Norte) e fundadora do Boi Rubro Negro (1965), tendo se estabelecido na cidade de Camaragibe/PE após 02 anos. Esta mulher é testemunha do êxodo rural e da ocupação periférica da Região Metropolitana do Recife. Sua força, determinação e sua habilidade em arregimentar pessoas, fez com que sua manifestação artística levasse seu nome, por isso mesmo, quando falamos do Boi Rubro Negro, estamos falando do “Boi de Dona Dóra”. A figura do boi é bastante representativa para nossa cultura, se relaciona diretamente à alimentação através de suas carnes e vísceras, à fabricação de roupas e acessórios do couro, seus chifres trazem proteção contra inveja e mau-olhado e seu sangue traz à energia vital para à ancestralidade. Seus usos são seculares e parecem infindáveis, indo de encontro às ondas contemporâneas que abdicam do consumo de carne e seus derivados; o Boi permanece sendo símbolo de prosperidade e bonança e por isso vem encarnado no Boi Rubro Negro com seus olhos de fogo, hipnotizando as pessoas que giram na gira do Boi.


Tecido nas tramas que costuram a cultura popular, o Boi tem reconhecido papel para a população local, bem como, das pessoas de fora que saem às ruas nos dias de Carnaval para acompanhar o cortejo do Boi de Dona Dóra. Sua energia contagiante arremata os foliões no carnaval de rua, abrindo passagem para brincadeira, enquanto as moradoras e os moradores vão ocupando as calçadas no ritmo frenético e potente do arranque do Boi.



Essa mulher carrega o “fundamento do boi”, guardado nas raízes de sua ancestralidade, a força da brincadeira, dando a esta forma de expressão características próprias que a tornam tão singular. Dona Dóra possui 81 anos de idade e no ano de 2021 comemora o 57º aniversário do Boi – “Esse é o Boi de Verdade!” – essa expressão representa bem o sentimento de pertencimento das pessoas com o Boi de Dona Dóra. É um trabalho de um ano inteiro até as apresentações no Carnaval, onde a comunidade se organiza em rede para os ensaios abertos, espaço potente para a transmissão do saber e o conhecimento artístico-cultural entre as gerações. Dona Dóra é a propulsora desse movimento que alimenta uma cadeia produtiva de ideias, danças, coreografias, confecção de adereços, indumentárias, músicas e toadas, fortalecendo a identidade local, bem como, sua economia solidária. Esta maneira de se aprontar, a julgar “intuitiva”, representa o modelo de organização social complexo que encadeia uma série de referências sociais latino-americanas de pertencimento étnico que nos faz “sulear” o pensamento.



Cada saída do Boi, representa a força da rede comunitária em promover espaço cultural e político, por onde a festa se torna lugar para reivindicação da própria existência – “esse grito já não nos tira mais!”. O Boi que move as pessoas, é carregado pelos "bonequeiros"; que se revezam no trajeto, acompanhados pela "burrinha";, um “cordão” composto por 12 jovens adolescentes que puxam as músicas e toadas; 12 "toureiros", jovens rapazes que fazem suas evoluções com varas e tecidos nas cores vermelho e preto. Belo batuque que levantam, numa sinergia apoteótica, os tambores trovejam e anunciam a força de sua passagem, abrindo os caminhos para o povo passar.



Ao longo do seu percurso, o “Boi” arrasta uma multidão que se aglomera entre as ruas e vielas da cidade, fazendo paradas nas casa dos moradores mais antigos, nos pequenos comércios que oferecem água e comida aos brincantes. Tudo isso, acompanhado pelas músicas ritmadas, algumas de autoria da própria Dona Dóra que acompanha o trajeto de perto, até à sua despedida com fogos e louvações em sua homenagem. Tendo participado do VI Encontro das Variantes Culturais dos Bois e Similares de Pernambuco ocorrido em 2018, o Boi Rubro Negro atua também através de convites das instituições educacionais, Fundação de Cultura de Camaragibe, Federação das Agremiações Carnavalescas de Camaragibe e demais. Contudo, é no tradicional desfile de Carnaval que a população espera as variações sonoras do Boi Rubro Negro, iniciando seu desfile no bairro do Alto Santo Antônio, com concentração na casa de Dona Dóra, descendo as ladeiras da comunidade e indo em direção aos bairros do Timbi, Novo do Carmelo (centro), Vila da Fábrica, Alto da Boa Vista e adjacências.



Dona Dóra, através do Boi Rubro Negro, cumpre o papel de repassar o saber, fortalecer e valorizar as tradições culturais do nosso Estado. Mesmo que seu trabalho seja realizado sobre a privação de recursos. Suas forças foram plantadas na terra de massapé, com raízes suficientes para fazer de Doralice uma mestra da cultura popular. Oriunda da zona canavieira, portadora do saber, ela se constitui enquanto memória viva capaz de congregar diferentes gerações em torno das atividades culturais do Boi Rubro Negro.



Essa mulher dedica sua vida à manutenção das atividades, de modo que suas ações se concentram na salvaguarda desta manifestação artística, carregando a força dos povos originários, traduzida em modelos próprios de saber-fazer da cultura popular local que se espraia para todo o estado de Pernambuco. O brinquedo é um ato revolucionário, estamos falando de um agente político social. Trata-se de uma família que durante os 365 dias do ano, congrega toda uma comunidade, unindo crianças, jovens e adultos. Esta é uma brincadeira séria onde o rufar dos repiques, o som do apito e a gira do boi, despertam em todas as pessoas que o


testemunham, a energia que transpira de sua efervescência. Como Dona Dóra sempre diz: “[...] é a mística do Boi!” - mística essa, que apenas as iniciadas e os iniciados sabem qual o seu real significado.



2021 foi um ano atípico, pois dos seus 57 anos, este foi o primeiro, desde sua fundação que o Boi Rubro Negro não foi às ruas. Não abriu o Carnaval de Camaragibe e não deixou nossa gente com o suor no corpo do tanto subir e descer ladeiras. Mas sabemos que a sabedoria das Mestras e Mestres tem resguardado toda a mágica e euforia do que tanto esperamos. É da voz de Dona Dóra que se abrem os caminhos ao som do apito, da corneta grave, dos tambores e da dança contagiante do boi que faz trepidar o chão. É da onda dos sorrisos contagiantes que nos permite limpar nosso corpo e alma para que nos anos seguintes voltemos às ruas de forma segura já com nossos corpos vacinados. Dona Dóra segue VIVA e sempre viverá, é Exu que abre os caminhos pra que o Boi Rubro Negro possa passar.



Oi, oi, oi, Dona Dóra tá de Boi!


Tá de quê, de quê, de quê?!


De Boi, de Boi, de Boi!



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